amar é ceder

domingo: 11 de janeiro: parafraseando gilles deleuze, "nunca se ama alguém por suas qualidades, mas por uma maneira singular de existir.”

amar é ceder

parafraseando Gilles Deleuze: “nunca se ama alguém por suas qualidades, mas por uma maneira singular de existir.”

Para entrar no clima do #MomentoCult, dê o play nessa música aqui. 💙

FIRST THINGS FIRST

Alguém tem que ceder

(Imagem: Something’s Gotta Give)

O filme Alguém Tem que Ceder (Something’s Gotta Give, 2003), dirigido por Nancy Meyers, tem vários clichês típicos de comédias românticas, mas também aborda afeto, envelhecimento e vulnerabilidade.

Na história, Harry Sanborn é um empresário bem-sucedido e galanteador, que só se relaciona com mulheres muito mais jovens.

Ele parece satisfeito com os relacionamentos vazios, até conhecer Erica Barry: uma dramaturga sensível, irônica e emocionalmente mais complexa do que qualquer mulher com quem ele tenha se envolvido.

  • O início do romance se dá de forma totalmente improvável, marcado por resistência, negação e, sobretudo, medo de se expor.

Nancy Meyers entende que apaixonar-se após certa idade não é mais sobre promessas grandiosas e frio na barriga, mas sobre desaprender defesas construídas ao longo da vida.

A chegada de Harry na vida de Erica não é romântica, é invasiva. Ele adentra o espaço, o silêncio e a casa dela.

O que dói em Erica não é o risco de perder Harry, mas o risco de perder-se de si mesma. Diferente dele, que protegeu-se escolhendo mulheres jovens, Erica sempre se protegeu escolhendo não esperar.

Ela não idealiza, fantasia nem romantiza; por isso, o amor, ao chegar, não surge como promessa, mas como abalo. Para ela, amar é reaprender a ocupar um lugar frágil que julgava desnecessário.

  • E o mais interessante aqui é que o filme não a pune por sua sensibilidade. Ao contrário: transforma sua vulnerabilidade em força narrativa.

Ela escreve melhor ao sofrer, sente mais ao tentar evitar e vive mais ao aceitar não controlar o desfecho. “Alguém Tem que Ceder” entende que o amor não salva, não organiza e nem completa — ele desarruma.

Erica Barry não é a mulher que deve ser escolhida no final; é a mulher que, ao ser atravessada por algo fora do controle, já tomou a escolha mais difícil: permitir-se sentir.

No fim, o filme mostra que o amor só chega quando a gente finalmente para de fugir. Porque sempre há algo que precisa ceder: o orgulho, o medo ou a versão endurecida que criamos de nós mesmos para não sofrer.

EDITOR’S PICK

Sunday’s Love 🖤

(Imagem: We Heart It)

Aproveite o clima de amor, siga as nossas dicas e seja feliz! 🌹

BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL

Nós já sabíamos

(Imagem: VSCO)

Cada pessoa é única: carrega vontades, desejos e opiniões próprias. Por vezes, essas diferenças se chocam. Às vezes, elas se apaixonam; às vezes, acabam se casando.

Entre as milhares de janelinhas de prédios em São Paulo, existe o apartamento de dois jovens recém-casados, na faixa dos vinte anos. Faz apenas três semanas desde o “sim”.

Otto é organizado, metódico e tão simétrico quanto seu próprio nome — que se lê igual de trás para frente. Madalena é o oposto: livre, intensa, de nome comprido e sobrenome que parece anunciar confusão.

— Tira a toalha molhada da cama, Lena.
— Essa mesa está uma zona.
— Não entra de sapato em casa!

As reclamações dele são constantes.

— Me deixa, Otto, são minhas coisas.
— Para de ser tão sistemático.
— Você me deixa maluca com essa neura de limpeza!

Ela responde no mesmo tom.

As brigas são frequentes, assim como o silêncio que vem depois. Orgulhosos, os dois se afastam sem saber ceder. Os vizinhos do lado, um casal de idosos, apenas sorriem. Reconhecem aquele amor. Já foram eles.

A discussão mais séria explode numa noite qualquer.

— Por que você nunca faz nada do jeito que eu peço? — grita Otto.

— Porque você quer mudar tudo em mim! — Madalena devolve, já com a bolsa na mão.

Pouco depois, ela está no bar com as amigas, algo que não costumava fazer. Alguém pede uma caipirinha e, quando Lena percebe, já está no quarto drink. Havia ficado bêbada antes, mas agora é diferente.

Entre um gole e outro, pensa em Otto: no carinho, nas brincadeiras e no sorriso torto de menino que ela tanto ama. Tirar os sapatos ao entrar em casa não parecia mais um sacrifício tão grande.

  • Ela olha ao redor: cheiro de álcool, beijos apressados e alguém vomitando em um vaso de planta. Vale mesmo a pena?

No caminho de volta, Madalena passa por uma loja de conveniência. Não pode chegar em casa com hálito de vodka e mãos vazias. Compra uma garrafa de água, um chiclete de menta e, quase sem pensar, um quebra-cabeça.

No elevador, tamborila os dedos na caixa do brinquedo. O coração acelera ao parar diante da porta. Três batidas. Dois segundos de espera. Então, os olhos que ela mais gosta.

Oi... Trouxe um quebra-cabeça. A gente pode montar juntos?

Você odeia quebra-cabeça — Otto observa.

Mas você gosta — ela dá de ombros. Dizem que amar é ceder, não é?

Ele franze a testa por um instante. Depois, o sorriso torto, o mesmo de sempre. O alívio vem acompanhado.

— Fiz suco de maracujá — ele diz, colocando o copo ao lado dela.

— Você não gosta de maracujá. Sempre diz que é azedo.

— Mas você gosta — ele pisca.

A partir daquele dia, o apartamento vira lar. Continua sem sapatos, é verdade, mas a mesa bagunçada já não incomoda tanto, e a toalha só fica na cama nos dias mais corridos.

Porque, no fim, sempre foi sobre isso: ceder por quem se ama, escolher os momentos bons acima dos defeitos e aprender a viver juntos.

  • Do outro lado da parede, os vizinhos idosos observam Otto e Madalena, trocam um sorriso cúmplice e dizem, em uníssono: "Nós já sabíamos."

Hoje, Otto e Madalena estão juntos há mais de 20 anos. Inclusive, quem escreveu esse texto foi a filha deles, Marcela, de 16 anos.

Segundo ela, os pais ainda parecem dois adolescentes. Em casa, estão sempre rindo, se abraçando e demonstrando carinho um pelo outro. Eles assistem vários filmes e nunca dormiram separados.

Otto manda textos de amor durante o dia para Lena; ela sempre chega em casa com um mimo para ele. Eles jantam juntos todos os dias, e esse é o momento preferido da Marcela: os três na mesa, comendo e conversando sobre tudo.

Na família, todos costumam brincar dizendo que a mãe sempre consegue tudo o deseja do pai. Mas, no fundo, é evidente que ele cede não por insistência, mas porque ama vê-la feliz.

Há um momento, em especial, que diz muito sobre isso.

No dia 6 de janeiro de 2025, a avó materna da Marcela faleceu de câncer. Madalena passou dias dormindo ao lado dela, encolhida em uma poltrona, sustentando-se apenas pela esperança. A perda a abalou profundamente.

Algumas semanas depois, numa sexta-feira qualquer, foi a primeira vez que saíram juntos após o luto. Lena encontrou algumas amigas, riu e conversou. Em meio à mesa, enquanto ela sorria, alguém percebeu que o pai chorava em silêncio.

Perguntaram o que havia acontecido. Ele enxugou as lágrimas, deu uma pequena risada envergonhada e respondeu que não era nada — apenas estava feliz por vê-la sorrir de novo.

Ficou curioso para conhecer Otto e Madalena? Eles já apareceram no nosso Instagram. 🧸

ENQUETE DO THE STORIES

Em um relacionamento saudável:

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RESULTADO DA ÚLTIMA ENQUETE

88,29% de vocês (603 pessoas) disseram que amizade é o que mais sustenta um relacionamento. 

Abaixo, uma resposta de destaque por opção:

 (Paixão) “Paixão, porque só amizade não sustenta, pois parece que tu tá namorando um amigo, e aquele amigo que tu não sente nenhuma atração. Pra mim, tem que ter os dois, mas o principal é a paixão, pois como é que você vai ser amigo de uma pessoa que você não gosta? A mesma coisa é relacionamento, primeiro paixão, depois amizade, para manter o vínculo da forma mais apaixonada possível.

 (Amizade) "Ter um amigo é compreender os motivos e as fragilidades do outro; é transformar defeitos em aprendizado mútuo através da paciência. Como esquecer a trajetória de Chandler e Monica? Eles provaram que, quando a base é a amizade, o amor se torna leve, próximo e genuíno. Depois de tantas tentativas frustradas com outras pessoas, encontraram um no outro o porto seguro que sempre buscaram. Simplesmente inesquecível.

EXTRA

O alto preço de viver longe de casa

(Imagem: Pinterest)

Voar: a eterna inveja e frustração que o homem carrega no peito a cada vez que vê um pássaro no céu. Aprendemos a fazer um milhão de coisas, mas voar… Voar a vida não deixou. Talvez por saber que nós, humanos, aprendemos a pertencer demais aos lugares e às pessoas. E que, neste caso, poder voar nos causaria crises difíceis de suportar, entre a tentação de ir e a necessidade de ficar.

Muito bem. Aí o homem foi lá e criou a roda. A Kombi. O patinete. A Harley. O Boeing 737. E a gente descobriu que, mesmo sem asas, poderia voar. Mas a grande complicação foi quando a gente percebeu que poderia ir sem data para voltar.

E assim começaram a surgir os corajosos que deixaram suas cidades de fome e miséria para tentar alimentar a família nas capitais, cheias de oportunidades e monstros. Os corajosos que deixaram o aconchego do lar para estudar e sonhar com o futuro incrível e hipotético que os espera. Os corajosos que deixaram cidades amadas para viver oportunidades que não aparecem duas vezes. Os corajosos que deixaram, enfim, a vida que tinham nas mãos, para voar para vidas que decidiram encarar de peito aberto.

A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas.

E começamos a viver um roteiro clássico: deitar na cama, pensar no antigo-eterno lar, nos quilômetros de distância, pensar nas pessoas amadas, no que eles estão fazendo sem você, nos risos que você não riu, nos perrengues que você não estava lá para ajudar. É tentar, sem sucesso, conter um chorinho de canto e suspirar sabendo que é o único responsável pela própria escolha. No dia seguinte, ao acordar, já está tudo bem, a vida escolhida volta a fazer sentido. Mas você sabe que outras noites dessa virão.

Mas será que a gente aprende? A ficar doente sem colo, a sentir o cheiro da comida com os olhos, a transformar apartamentos vazios na nossa casa, transformar colegas em amigos, dores em resistência, saudades cortantes em faltas corriqueiras?

Será que a gente aprende? A ser filho de longe, a amar via Skype, a ver crianças crescerem por vídeos, a fingir que a mesa do bar pode ser substituída pelo grupo do whatsapp, a ser amigo através de caracteres e não de abraços, a rir alto com HAHAHAHA, a engolir o choro e tocar em frente?

Será que a vida será sempre esta sina, em qualquer dos lados em que a gente esteja? Será que estaremos aqui nos perguntando se deveríamos estar lá e vice versa? Será teste, será opção, será coragem ou será carma?

Será que um dia saberemos, afinal, se estamos no lugar certo? Será que há, enfim, algum lugar certo para viver essa vida que é um turbilhão de incertezas que a gente insiste em fingir que acredita controlar?

Eu sei que não é fácil. E que admiro quem encarou e encara tudo isso, todo dia.

Quem deixou Vitória da Conquista, São José do Rio Preto, Floripa, Juiz de Fora, Recife, Sorocaba, Cuiabá ou Paris para construir uma vida em São Paulo. Quem deixou São Paulo pra ir para o Rio, para Brasília, Dublin, Nova York, Aix-en-provence, Brisbane, Lisboa. Quem deixou a Bolívia, a Colômbia ou o Haiti para tentar viver no Brasil. Quem trocou Portugal pela Itália, a Itália pela França, a França pelos Emirados. Quem deixou o Senegal ou o Marrocos para tentar ser feliz na França. Quem deixou Angola, Moçambique ou Cabo Verde para viver em Portugal. Para quem tenta, para quem peita, para quem vai.

O preço é alto. A gente se questiona, a gente se culpa, a gente se angustia. Mas o destino, a vida e o peito às vezes pedem que a gente embarque. Alguns não vão. Mas nós, que fomos, viemos e iremos, não estamos livres do medo e de tantas fraquezas. Mas estamos para sempre livres do medo de nunca termos tentado.

Ruth Manus

RODAPÉ

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