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estado de graça
domingo: 01 de fevereiro: "o amor é algo que não se tem nunca. é evento de graça. aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera."

estado de graça
“o amor é algo que não se tem nunca. é evento de graça. aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera.”

FIRST THINGS FIRST
É mais fácil amar o retrato

(Imagem: The Kiss, Gustav Klimt)
É mais fácil amar o retrato. Eu já disse que o que se ama é a ‘cena’. ‘Cena’ é um quadro belo e comovente que existe na alma antes de qualquer experiência amorosa. A busca amorosa é a busca da pessoa que, se achada, irá completar a cena.
Antes de te conhecer eu já te amava.... E então, inesperadamente, nos encontramos com rosto que já conhecíamos antes de o conhecer. E somos então possuídos pela certeza absoluta de haver encontrado o que procurávamos. A cena está completa. Estamos apaixonados.
No início desse trecho, Rubem Alves fala menos do amor e mais da imaginação. Para ele, o amor não começa no encontro, mas antes — como saudade de algo que nunca aconteceu.
A “cena” é esse teatro íntimo que montamos: um quadro suspenso no ar, feito de desejo, falta e promessa. Não é uma pessoa; é uma forma vazia, esperando alguém que caiba nela.
Seguindo essa ideia, a psicanalista Ana Suy diz que “frequentemente amamos uma idealização ou um espelho de nós mesmos.”
Amar de verdade, segundo ela, implica aceitar a diferença, sustentar o desencontro e abrir mão de transformar o outro em um objeto que satisfaça nossas fantasias. “Só podemos amar onde suportamos perder.”
Rubem Alves diria que a paixão nasce de um engano: acreditamos ter encontrado fora aquilo que nasceu dentro. A pessoa amada torna-se moldura. Completa a cena.
Mas o problema é que, ao contrário das pessoas, a cena é perfeita. Não erra, não envelhece, não se contradiz e não diz o que não queremos ouvir. Ela só existe obediente dentro da alma.
Assim, podemos dizer que o amor maduro começa quando o retrato racha, ao perceber que o outro não veio para completar a cena, mas para desconstruí-la e desmontá-la.
Amar, então, deixa de ser encontrar e passa a ser inventar juntos — uma nova cena, imperfeita, viva, em constante movimento.
Como Ana Suy disse que “a gente não ama o outro porque ele é nosso espelho”, o milagre não está em encontrar quem já amávamos antes de conhecer; o milagre é continuar amando depois que o retrato cai.
EDITOR’S PICK
Let things go 🕊️

tradução: “para que as coisas cheguem, você precisa deixar as coisas irem.” (Imagem: Tumblr)
Deixe ir o que não faz mais sentido, abra espaço para o novo e siga as nossas dicas. Você não irá se arrepender! 💘
BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL
Obrigada por voltar

(Imagem: VSCO)
Maria Regina conheceu Christian antes mesmo de saber o que era amor. Na infância, ele aparecia nos verões em São Domingos do Sul, subindo a rua até a casa dos pais dela para brincar.
A avó dele era vizinha; as famílias se conheciam, havia até um parentesco distante — dessas histórias de interior em que tudo se cruza sem alarde.
Depois, o tempo fez o que sempre faz: separou. Christian foi morar em Alegrete; as visitas ficaram raras, e a infância virou memória.
Ele ainda guarda a lembrança de uma das últimas vezes em que a viu, aos onze anos, quando subiu até a casa dela e Maria, ao reconhecê-lo, correu para dentro para se esconder.
A verdade é que nenhum dos dois imaginava que aquilo não havia terminado ali. Mas, como bem disse Machado de Assis, “o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho.”
Já adulta, Maria ouvia o nome de Christian ocasionalmente, sempre trazido pela avó dele em conversas com seus pais. E era curioso: toda vez que o nome surgia, algo mudava. Um frio no barriga, uma inquietação.
Ela pensava, quase como quem não leva o próprio pensamento a sério: “Será que a gente ainda vai se encontrar e rir disso tudo?”
Isso porque ela sempre o achou bonito. Os olhos azuis que parecem enxergar além do que dizem. Esse efeito já acontecia naquela época, embora Maria não percebesse.
O reencontro veio de forma banal: uma rifa para ajudar o pai, um story e uma reação no direct. Nada parecia anunciar o que estava por vir.
A conversa seguiu despretensiosa, quase cuidadosa. Maria havia saído recentemente de um relacionamento longo, de quase sete anos. Em tom de brincadeira, chegou a dizer que ele poderia lhe apresentar algum amigo.
Christian, por sua vez, foi direto: quero ficar com você. Seria só isso: sairiam algum dia, sem pretensões.
Mas do “algum dia” veio o primeiro encontro, depois outro, depois outro. Um jantar que ele preparou — “não é um date”. Uma quarta-feira em Guaporé para comer cachorro-quente — novamente, “não é um date”.
Eram dois adultos fingindo que não percebiam o óbvio. Já era amor antes de ser. Porque, como bem disse Rubem Alves, “amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E quando ele volta, a alegria volta com ele.”
Maria começou a notar que nunca recusava uma oportunidade de estar perto dele. Sempre dava um jeito. Sempre cabia na agenda. Sempre parecia necessário.
Foi nesse espaço — sem pressa e sem promessas — que ela entendeu: amor não chega com impacto; chega com constância. Não exige, confunde nem pesa. Ele se instala aos poucos e, ao ser percebido, vira casa.
Christian não apareceu para salvar Maria, mas para ficar, ouvir e segurar sua mão nos dias difíceis. Veio oferecer segurança após um tempo em que ela conhecia apenas cuidado pela metade.
Desde que se reencontraram, a vida parece mais simples. Não porque os problemas desapareceram, mas porque, ao serem divididos, diminuem.
Eles compartilham o gosto pela natureza, por lugares calmos, carros antigos, o apartamento que chamam de “nosso”, o chimarrão na praça, o sorvete no sofá, pelos dias silenciosos e pelos dias cheios.
Maria diz que ama amar Christian — e talvez essa seja a frase que melhor explica tudo.
Ela também contou que ninguém jamais havia feito coisas assim por ele — uma carta, um presente entregue à mão e gestos pensados com tempo. Por isso, ela escreve.
Para Maria, escrever é a forma mais honesta de dizer o que sente. Registrar é uma maneira de cuidar. Hoje, Maria escreve para deixar essa história existir além deles e para que o mundo conheça esse amor.
Segundo ela, alguns amores não chegam cedo nem tarde: chegam quando finalmente encontram espaço. “Cristian, obrigada por voltar. Obrigada por ficar. Obrigada por me amar.”
Ficou curioso para conhecer este casal? Eles já apareceram no nosso Instagram. 🧸
ENQUETE DO THE STORIES

tradução: “aquela sensação de quando seus cenários imaginários se tornam realidade.”
Paixão sempre parece um acidente — como se a gente esbarrasse em alguém por acaso e pronto, caiu. Mas será mesmo? Ou a paixão nasce muito antes do encontro, no que a gente projeta, espera, fantasia e precisa?
Às vezes, parece menos sobre quem está diante de nós e mais sobre o que estamos dispostos a inventar no outro, deixando a dúvida:
Paixão é encontro ou invenção? |
RESULTADO DA ÚLTIMA ENQUETE
61,77% de vocês (265 pessoas) disseram que a intensidade aproxima.
Abaixo, uma resposta de destaque por opção:
→ (Aproxima) “Aproxima quem tem que ficar; afasta o que ja não era seu.”
→ (Aproxima/2) “Deus me livre ser blasé no amor.”
→ (Afasta) “No começo, acredito que aproxima. Você rapidamente conhece aquela pessoa que, inicialmente, era estranha — e você quer conhecer cada vez mais sobre ela. Mas chega um momento em que, se não é colocado um limite, essa intensidade se torna um labirinto e você se perde. Você passa a agir por impulso, sem realmente pensar nas coisas — e é aí que a intensidade afasta. Acredito nessa teoria da força, aquele senso comum que diz: “tudo que inicia intenso demais, acaba rápido demais.”
EXTRA
Quem deixou que meus pais envelhecessem?

(Imagem: Pinterest)
Meus pais não são velhos. Quer dizer, velho é um conceito relativo. Aos olhos da minha avó, são muito moços. Aos olhos dos amigos deles, são normais. Aos olhos das minhas sobrinhas, são muito velhos. Aos meus olhos, estão envelhecendo. Não sei se lentamente, se rápido demais ou se no tempo certo. Mas sempre me causando alguma estranheza.
Lembro-me de quando minha mãe completou 60 anos. Aquele número me assustou. Os 59 não pareciam muito, mas os 60 pareciam um rolo compressor que se aproximava. Daqui uns anos, ela fará seus 70 e eu espero não tomar um susto tão grande dessa vez. Afinal, são apenas números.
Parece-me que a maior dificuldade é aprendermos a conciliar nosso espírito de filho adulto com o progressivo envelhecimento deles. Estávamos habituados à falsa ideia que reina no peito de toda criança: eles eram invencíveis. As gripes deles não eram nada, as dores deles não eram nada. As nossas é que eram graves, importantes e urgentes. E, de repente, o quadro se inverte.
Começamos a nos preocupar — frequentemente de forma exagerada — com tudo o que diz respeito a eles. A simples tosse deles já nos parece um estranho sintoma de uma doença grave, não uma mera reação à poeira. Alguns passos mais lentos dados por eles já não nos parecem calma, mas sim uma incômoda limitação física. Uma conta não paga no dia do vencimento nos parece fruto de esquecimento e desorganização, não um simples atraso como tantos dos nossos.
Num dado momento, já não sabemos se são eles que estão de fato vivendo as sequelas da velhice que se aproxima ou se somos nós que estamos excessivamente tensos, por começarmos a sentir o indescritível medo da hipótese de perdê-los — mesmo que isso ainda possa levar 30 anos.
Frequentemente nos irritamos com nossos pais, como se eles não estivessem tendo o comportamento adequado ou como se não se esforçassem o bastante para manterem-se jovens, vigorosos e ativos, como gostaríamos que eles fossem eternamente. De vez em quando esbravejamos e damos broncas neles, como se estivéssemos dentro de um espelho invertido da nossa infância.
Na verdade, imagino eu, nossa fúria não é contra eles. É contra o tempo. O mesmo tempo que cura, ensina e resolve, é o tempo que avança como ameaça implacável. A nossa vontade é gritar: “Chega, tempo! Já basta! 60 já está bom! 65 no máximo! 70, não mais do que isso! Não avance, não avance mais!”. E, erroneamente, canalizamos nos nossos pais esse inconformismo.
O fato é que, às vezes, a lentidão, o esquecimento e as limitações são, de fato, frutos da idade. Outras vezes, são apenas frutos da rotina, tão naturais quanto os nossos equívocos. Seja qual for a circunstância, eles nunca merecem ter que lidar com a nossa angústia. Eles já lidaram com os nossos medos todos — de monstros, de palhaços, de abelhas, de escuro, de provas de matemática — ao longo da vida. Eles nos treinaram, nos fortaleceram, nos tornaram adultos. E não é justo que logo agora eles tenham que lidar com as nossas frustrações. Eles merecem que sejamos mais generosos agora.
Mais paciência e menos irritação. Menos preocupação e mais apoio. Mais companheirismo e menos acusações. Menos neurose e mais realismo. Mais afeto e menos cobranças. Eles só estão envelhecendo. E sabe do que mais? Nós também. E é melhor fazermos isso juntos, da melhor forma.
—
RODAPÉ
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