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domingo: 25 de janeiro: "o resto é silêncio."

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o resto é silêncio.

FIRST THINGS FIRST

Qual é o valor da arte?

(Imagem: Hamnet)

Com direção de Chloé Zhao e produção de Steven Spielberg, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se apresenta como uma experiência sensorial capaz de fazer o espectador esquecer, ainda que por algumas horas, o mundo exterior.

No centro da narrativa está William Shakespeare, interpretado por Paul Mescal, e sua mulher Agnes, vivida de forma quase sobrenatural por Jessie Buckley.

Os dois se conhecem sob o signo do amor proibido, com a intensidade típica das tragédias, mas o que o filme propõe vai muito além da paixão inicial.

  • Após o casamento, Zhao se afasta da grandiosidade associada ao nome Shakespeare para observar aquilo que quase nunca entra nos livros: a vida íntima, doméstica e silenciosa que antecede a obra.

Em vez do gênio consagrado, o filme acompanha um homem comum, inserido em uma rotina familiar feita de afeto, trabalho e fragilidade. A narrativa se constrói nesse cotidiano, com atenção especial à figura de Agnes.

O grande eixo do longa-metragem está no diálogo com a história real: sabe-se que Shakespeare teve um filho chamado Hamnet e que, anos depois, escreveu Hamlet, uma de suas peças mais célebres.

Ainda assim, o filme não tenta explicar essa obra por meio de uma causalidade direta. A intenção parece ser outra: mostrar como grandes criações nascem, muitas vezes, de experiências íntimas, invisíveis e silenciosas.

Hamnet não é um filme sobre a peça Hamlet, mas sobre o silêncio que a precede.

E assim como Shakespeare escreveu Hamlet tentando entender um sentimento que não cabia em palavras, quem assistiu ao filme no cinema parece ter entendido junto: no silêncio, no choro e na emoção compartilhada.

  • A arte — inútil e frágil — materializa-se na conexão. Uma linha tênue que só existe ali.

A arte cura não porque conserta, mas porque acolhe e cria um espaço no qual a dor pode existir sem precisar ser útil, o luto não precisa virar aprendizado e o amor não precisa gerar retorno.

Em um mundo onde tudo precisa ter utilidade, é bom lembrar que são justamente as coisas que não servem para nada que dão sentido à vida. Como já dizia Nietzsche: “temos a arte para não morrer da verdade”.

APRESENTADO POR SOTO

A beleza de se apaixonar por algo novo

Tem um momento bonito em toda paixão: quando percebemos que queremos aprender. Aprender o nome das coisas, o ritmo, o movimento. É como se apaixonar por um novo hobby, por exemplo: primeiro a curiosidade, depois a vontade de mergulhar de cabeça.

No kitesurf, isso significa entender o vento, abraçar o mar… E esse novo esporte pode transformar seu jeito de estar no mundo: você passa a escolher destinos por experiências, estar mais presente e sentir a natureza de um jeito diferente.

(Na imagem: Kamila Rodrigues. Foto: Rochelle Vaz)

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EDITOR’S PICK

Sunday’s Love 🏹

(Imagem: Tumblr)

Aproveite o clima de amor, siga as nossas dicas e seja feliz! 🌹

BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL

O mundo é pequeno demais para ela

(Imagem: VSCO)

Helena sempre teve a sensação de que o mundo era estreito demais para caber dentro dela. Não por arrogância, mas por excesso de ideias, sensações e amor.

Tudo nela vinha em volume alto: as cores, os afetos, as crises e os silêncios. Era o tipo de mulher que não atravessava os lugares — colidia com eles.

Miguel a conheceu jovem, quando ainda acreditava que a vida precisava de ordem para funcionar.

  • Ele gostava de listas, horários e finais compreensíveis.

  • Ela gostava do que escapava. Do que não cabia. Do que não tinha nome.

Talvez por isso tenham se reconhecido tão rápido: não como opostos, mas como duas formas diferentes de tentar sobreviver ao mesmo caos.

Eles se apaixonaram no verão e casaram-se três meses depois — e não teve festa grande. Helena usou um vestido simples, que ela mesma pintou. Miguel achou que aquele era o gesto mais honesto que já tinha visto.

Foram morar perto do mar, em uma casa pequena, com as paredes descascadas e os livros empilhados no chão. Não tinham muito, mas possuíam o que precisavam para serem felizes: amor.

Helena pintava compulsivamente. Pintava quando estava feliz, quando estava furiosa e quando não conseguia explicar o que sentia. Miguel escrevia, não para publicar, mas para entender.

  • Era assim que se amavam: cada um tentando traduzir o outro em sua própria linguagem.

Helena nunca foi fácil. Às vezes, era expansiva demais, falava rápido e queria tudo ao mesmo tempo. Em outros dias, o mundo pesava tanto que ela mal conseguia sair da cama.

Os médicos davam nomes, os amigos davam conselhos, mas Miguel ficava. Não por heroísmo, mas por escolha. Ele entendeu cedo que amar Helena significava aceitar que a vida com ela não seria linear; seria intensa.

  • Entre sustentar uma casa e criar três filhos, eles ainda encontravam espaço para apreciar — e respirar — a arte.

Conversavam sobre Van Gogh e Machado de Assis. Miguel achava que Capitu havia traído Bentinho; Helena achava que Bentinho era doido. A arte não os salvava, mas os acompanhava.

Passaram essa paixão para os filhos, que, posteriormente, passaram para os netos. Para Maria Tereza, almoçar na casa dos avós era sinônimo de comer bem — e aprender um pouco sobre a vida.

Todos achavam que Helena partiria antes de Miguel, mas foi ele quem adoeceu primeiro. Um baque para a família inteira. Era Miguel quem colocava tudo em ordem — e sempre com amor.

Por incrível que pareça, quando ele começou a ficar enfermo, foi ela que ficou: organizou os remédios, leu para ele quando sua visão falhou e segurou sua mão nos dias em que o mundo parecia pequeno demais para ele também.

O curioso é que, no fim, foi Helena quem encontrou uma espécie de descanso. Cuidar de Miguel deu forma ao excesso; deu contorno ao que antes transbordava.

Eles não se curaram no sentido clássico da palavra, mas aprenderam a existir um no outro. A arte os ensinou a nomear o indizível. O amor, a permanecer mesmo quando não havia resposta.

Maria Tereza, uma das netas, é quem escreve essa história. A história de amor mais linda que ela já viu.

Em um mundo onde ninguém permanece, ela agradece por ter um exemplo de que o amor vale a pena — mesmo quando parece difícil. Após tudo o que viu, Maria Tereza sabe: não dá para desistir do amor.

ENQUETE DO THE STORIES

(Imagem: Betty Blue)

Intensidade aproxima ou afasta?

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RESULTADO DA ÚLTIMA ENQUETE

56,48% de vocês (257 pessoas) disseram que o amor verdadeiro os faz mudar seus planos.

Abaixo, uma resposta de destaque por opção:

 (Mudar seus planos.) “Quando tu encontra alguém, tu já não é mais singular: torna-se plural. Já não é mais ‘eu’, mas sim um ‘nós’. Então, o plano da viagem dos sonhos sozinho se tornou um pacote de viagens a dois, para mais de um destino, visando a satisfação mútua. As rotinas se misturam, os hábitos se entrelaçam e tudo se torna compartilhado. Existem coisas e princípios que tu pode manter apenas seus; porém, em sua maioria, as coisas precisam mudar. Amar é saber que, para ter paz, às vezes é preciso ceder a razão. Portanto, às vezes, é melhor mudar seus planos e aproveitar uma experiência que pode ser ainda melhor com seu parceiro(a).

 (Manter quem você é) “Em minha humilde concepção, o amor te faz manter quem você é, mas com alguns pequenos ajustes das duas partes. Cabe salientar que o grande problema dos dias de hoje é que as pessoas não têm paciência pra fazer os ajustes que faltam ser feitos. Mas seguimos caminhando e cantando, esperando que esse amor do dia possa chegar e que, quando ele chegar, estejamos preparados para vivê-lo.

EXTRA

Ostra feliz não faz pérola

(Imagem: Pinterest)

Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos -, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.

Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro de sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas asperezas, arestas e pontas, bastava para envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava.

Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou-a e deu-a de presente para a sua esposa.

Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzche observou que os gregos, por oposição aos cristãos , levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia.

Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…

Rubem Alves

RODAPÉ

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